segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fome de tudo

– Vruuum, vruuum, vruuum, vruuum, trak, taraktrak, vruuuum, vruuuum...

Da janela de um pequeno edifício, um homem de parcos cabelos brancos observa o movimento da rua.

– Que barulho ensurdecedor é esse, homem?
– Tem uma multidão na rua, querida. Venha ver.
– Vou esperar passar no noticiário. Meus pés estão frios e prefiro esquentá-los a ficar pendurada na janela.
– Cada um com a sua janela, então querida – disse o homem.

A sombra de um dirigível gela o ar ao encobrir a luz da manhã. Da multidão parada na rua, ouve-se protestos. A enorme mancha do veículo flutuante cruza distorcida e lenta a avenida, escala edifícios e some, desobstruindo a visão da turba. O rumor de suas hélices o impulsionando no ar apaga-se na distância, reverberando ruídos e estalos no câniom de espelho e aço onde penetra. Agora ouve-se apenas o burburinho da multidão e, em seguida, o silêncio da manhã fria de inverno. Usando óculos escuros, alguns de olhos fechados, a gente que toma a larga avenida aprecia o momento.

No dia anterior, um comunicado em rede nacional fez saber àquelas pessoas que na manhã daquele dia uma equipe de cientistas da mundialmente conceituada universidade local daria início a uma experiência científica, cujo objetivo é dispersar o gigantesco acúmulo de nuvens cinzentas que paira nos céus do planeta há cento e cinquenta anos.

"– Por volta das sete horas da manhã, horário local, a equipe, chefiada pelo Dr. Atir Kosnikovitz, um grande nome da ciência mundial conhecida, ligará um aparelho que lançará aos céus insetos devoradores de nuvens provenientes de Aria-17. Os insetos em questão foram encontrados pelos destemidos astronautas mineradores da UEI em sua sexta expedição ao cinturão de Seliah, treze anos atrás, alimentando-se da densa neblina que envolve o Pico Dorung daquele planeta. Os pequenos seres, denominados insetos devido a sua similaridade com as espécies invertebradas de insectóides que povoam nosso planeta, foram coletados e levados a bordo da nave Hércules onde foram congelados e alojados em compartimentos especiais para futuros estudos..."

– É aquela tal máquina que vai lançar os insetos, mulher – diz o homem da janela.
– Estou vendo na TV, já disse – grita a voz pigarrenta.

"–... os testes feitos em laboratório nos deram ótimos resultados. Estamos otimistas. Os nubilófagos são criaturas curiosas. Adaptaram-se rapidamente à nossa atmosfera e às condições climáticas."
"– Dr. Kosnikovitz, há um grande alvoroço por parte dos ambientalistas acerca da importação, entre aspas, por assim dizer, desses seres alienígenas para a Terra, alguns preocupados com as condições com que são tratados nos laboratórios, uma vez que estavam em paz devorando nuvens lá em Aria-17, outros..."
"– O que há, de fato, caro Gusmel, é uma mentalidade atrasada que vê a nós, cientistas, como pessoas frias, sem coração, que se alimentam de cálculos e fórmulas matemáticas mergulhados em soluções químicas, etílicas, coloridas e borbulhantes servidas em tubos de ensaio esfumaçantes. Na verdade, caro telespectador, somos gente como você, que tem família e que se preocupa com sua casa, com a vizinhança..."

Cartazes e faixas com palavras de protesto espalham-se sobre as cabeças da multidão que, como chaminés, expelem fumaça branca de suas bocas de dentes rangentes. Há anos, entidades ecológicas questionam a vinda dos insetos de Aria-17 ao planeta Terra, pois temem que proliferem-se descontroladamente e causem problemas em seu novo lar, podendo até vir a mudar seus hábitos alimentares devido a drástica mudança de ambiente que sofreram ao serem tirados de seu habitat natural. Pensadores passaram a questionar o problema, argumentando que a humanidade estaria em uma espécie de castigo imposto pela Natureza, após tantos anos de exploração e mal uso dos recursos naturais gentilmente cedidos durante milênios. Religiosos concordaram em termos condizentes às suas crenças e afirmaram o retorno de tempos de paz e prosperidade em um futuro próximo, segundo suas empoeiradas escrituras. A polêmica ganhou adeptos na comunidade científica quando surgiram dados que demonstravam a surpreendente adaptabilidade, praticamente imediata, dos insetos de Aria-17 à atmosfera terrestre.

– Eu me recordo desse dia – suspira o homem na janela. – As imagens da equipe de mineração. Alguns deles eu mesmo treinei. Se eu fosse um pouquinho só mais novo, teria embarcado com eles naquela missão.
– E você teria perdido o nascimento de sua neta – resmunga a mulher.
– Ela estaria aqui quando eu voltasse. Uma missão como aquela é única na vida de um homem.
– Se você quisesse mesmo ir, saberia como chegar lá. A idade não foi o seu problema.
– Quem sabe? – resigna-se o homem ao flertar com lembranças de outrora, momentos secretos que ficaram trancafiados nos porões da memória.

Ouve-se um estrondo seguido de um som agudo como o riscar de um giz branco em um quadro negro. Ouve-se o silêncio, como se a atmosfera evaporara-se e o éter tomara conta do planeta. O som não se propaga, não ressoa, deixa de existir por alguns segundos. Em seu lugar, expectativa e medo podem ser fatiados no ar. O dirigível da emissora de TV local aponta uma dezena de câmeras para o amontoado de nuvens cinzentas acima. A espessa camada cobre a maior parte do planeta Terra em decorrência de séculos de poluição do ar. O dirigível flutua incansável. Suas câmeras são os olhos do resto do mundo. Lá embaixo, a multidão aguarda.

No céu surge uma coluna vertical invertida; um túnel que atravessa a espessa camada de nuvens. A multidão se espanta e se amontoa mais, querendo aproximar os olhos curiosos do buraco, querendo ver mais, desejando, cada um daqueles homens e mulheres e crianças e idosos, ser o primeiro a apontar o dedo para o que quer que fosse acontecer ou aparecer ali. Em questão de segundos, pipocam túneis similares ao redor do primeiro, transformando o céu cinza numa espécie de peneira gigante por onde entram sutis raios de luz amarelados. A multidão, em povorosa, esboça sorrisos ao perceber ao longe o azul anil do céu, conhecido apenas através das imagens encarceradas em museus; uma saudosa nostalgia paira no ar, de um tempo que não pertence à maioria ali presente como indivíduos, mas sim à memória da humanidade; arrepios e lágrimas ali e acolá e a sensação de libertar-se do ceticismo, da descrença, da inaptidão de acreditar na sorte ou apenas em milagres.

– Sinto-me como se já tivesse visto o céu azul antes, como se ainda ontem fosse um menino tendo a certeza de um dia poder ver o céu além das imagens resgatadas pelos historiadores... – disse o velho com voz trêmula.
– É, isso parece mesmo fazer parte de você. Você realmente parece ter uns 200 anos de idade. – pigarreou a velha ajeitando-se na poltrona.
– Admito minha meninice, essa coisa que parece pertencer ao homem mais do que à mulher. E foi esse menino quem me levou além das estrelas e a conhecer outros planetas e a tantas aventuras, e...
– … e a dor do parto quem sentiu fui eu! Mais de uma vez! Me orgulho de você, homem. Não o amaria se não o admirasse, mas sempre lhe faltou pé no chão por que vivia querendo ver o céu azul. E agora aí o tem ao alcance dos olhos. Então, pare de melodrama e aproveite a vista, que ainda é de graça!

O silêncio dominava a cena. À medida que as nuvens cinzentas dissipavam-se e o céu azul dominava o arco visível, as pessoas iam dando-se conta do sucesso da operação experimental do Dr. Atir Kosnikovitz, orgulhosas de seu testemunho. Aos poucos, as pessoas começaram a aplaudir a cena, a ovacionar toda aquela beleza proporcionada pela ciência. Abraçavam-se alguns, beijavam-se outros. Mesmo o Dr. Kosnikovitz, dentro de toda a sua santidade científica, parecia estar interessado apenas em vislumbrar a cena maravilhosa. Aquietaram-se o egos e os corações da humanidade bateram felizes como se estivessem diante da presença de um amigo que há muito, muito tempo não viam.

O céu azul estava ali, diante de todos. Os telefones começaram a tocar. Pessoas de todos os lugares queriam saber mais detalhes da experiência que podiam ter apenas através das lentes da TV, de dentro de suas casas em outras partes do mundo. Em poucos minutos, várias nações entraram em contato com as autoridades locais e encomendaram a máquina do Dr. Kosnikovitz. Uma coletiva de imprensa estava sendo marcada para o meio-dia quando o primeiro sinal do que estava prestes a dar fim ao planeta Terra sucedeu.

O dirigível desgovernado cai em chamas sobre a multidão encurralada na grande avenida. Milhares morrem carbonizados em instantes pois o oxigênio alterado provoca maior combustão e tornou-se um veículo de expansão para as chamas, se espalhando pelo ar como se fosse líquido, fenômeno que a ciência sequer terá a oportunidade de explicar, pois ali dá-se iníco a erradicação da humanidade e de toda a sua história. Sobra apenas o consolo da memória daqueles que habitam estações espaciais e colônias em outros planetas da galáxia conhecida.

Em instantes percebesse a causa da queda do dirigível. Os nubilófagos haviam devorado a estrutura externa do veículo causando mau funcionamento nos controles, consequentemente, a desorientação da aeronave. O piloto obteve algum êxito ao evitar o choque do dirigível com um dos edifícios espelhados espalhados ao redor, êxito esse destinado ao fracasso quando já a essa altura os nubilófagos haviam adaptado-se a um novo paladar; devoravam agora a estrutura metálica de toda a aeronave, causando panes em motores e curtos- circuitos nos diversos sistemas; incêndios propagaram-se imediatamente, transformando em segundos o dirigível em uma bola de fogo.

O novo menu parecia estar repleto de novidades para os pequenos seres alienígenas. A variedade era tamanha que até mesmo seu metabolismo e sua capacidade de procriação transformaram-se em questão de horas. Edifícios, veículos, continentes foram devorados; metal, vidro, plástico, carne humana, água, terra, tudo o que encontravam pelo caminho era devorado em instantes. Diz-se que antes de chegarem com sua voracidade ao núcleo do planeta, os nubilófagos deram por devorarem uns aos outros, o que deve explicar o repentino cessar da destruição iminente do planeta Terra, que agora jaz pedra infértil a vagar pelo sistema solar acompanhado apenas da sua fiel e inseparável companheira, a Lua.

Da janela do pequeno edifício, o homem de parcos cabelos grisalhos percebera algo de estranho ao tescer mais um de seus comentários sobre o fantástico feito da ciência, da aventura da qual fez parte, mesmo que apenas como um coadjuvante entre tantos coadjuvantes, daquele momento histórico e obteve de sua senhora logo ali sentada em sua confortável poltrona a devorar anúncios publicitários e informação mastigada, apenas o silêncio. Desconfiado, o homem voltou sua atenção para dentro de seu apartamento e o que viu o aterrorizou apenas tempo suficiente para esboçar um gemido enquanto ele mesmo era devorado até os ossos.

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